Governo Lula está ampliando, dia após dia, o pacote de bondades para garantir sua reeleição, mas trazendo um custo perverso para o país no futuro
Author: Ecio Costa
May 19, 2026
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A série de medidas econômicas deve movimentar cerca de R$ 227 bilhões na economia brasileira justamente em ano eleitoral. O pacote de bondades reúne ampliação de crédito, programas sociais, renegociação de dívidas, subsídios aos combustíveis, incentivos para habitação e até mudanças no Imposto de Renda. Embora argumentem que parte dessas iniciativas possui impacto fiscal neutro ou compensado por novas receitas, além do problema de aumento do endividamento, o volume de recursos circulando na economia amplia as pressões inflacionárias e dificulta o trabalho do Banco Central na condução da política monetária.
A estratégia do governo tem como objetivo claro de reverter a queda de popularidade de Lula nos últimos meses diante da inflação persistente, especialmente nos alimentos e combustíveis, além da desaceleração da economia e da manutenção dos juros em níveis elevados. Neste cenário, o governo passou a apostar em medidas capazes de gerar impacto mais imediato no bolso da população, ampliando o consumo, o acesso ao crédito e o poder de compra das famílias.
As medidas atingem diferentes segmentos da economia e possuem forte apelo popular. Entre os principais anúncios está a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, além de descontos parciais para salários de até R$ 7.350. O custo estimado da medida é de R$ 31 bilhões. O governo sustentou que essa perda de arrecadação seria compensada pela criação de um imposto mínimo sobre os chamados super-ricos, tentando transmitir a ideia de neutralidade fiscal, mas que não tem acontecido, segundo dados recentes da arrecadação.
Ao mesmo tempo, o governo ampliou programas de financiamento para indústria, agronegócio, transporte e habitação. O Plano Brasil Soberano 2.0 prevê R$ 15 bilhões em crédito do BNDES para empresas exportadoras, enquanto o programa voltado à indústria 4.0 e à economia verde disponibiliza mais R$ 10 bilhões. O agronegócio também foi contemplado por meio do Moviagrícola, que prevê R$ 10 bilhões para aquisição de máquinas e equipamentos agrícolas, numa tentativa de estimular investimentos e modernização do setor.
No setor de transportes, o MOV Brasil deve liberar R$ 21,2 bilhões em linhas de crédito para caminhões e ônibus. Já o crédito consignado privado, chamado de Crédito do Trabalhador, movimentou R$ 22,9 bilhões apenas nos primeiros meses de funcionamento, permitindo que trabalhadores do setor privado tenham acesso facilitado a empréstimos com desconto direto na folha salarial. Embora isso ajude a movimentar a economia no curto prazo, o aumento do endividamento das famílias se tornará um problema mais adiante, principalmente em um cenário de juros altos.
A habitação também entrou no centro da estratégia econômica. Mudanças no Minha Casa, Minha Vida, novas linhas de crédito imobiliário e programas voltados à reforma de moradias devem injetar bilhões no setor da construção civil. O objetivo é estimular empregos, consumo de materiais e aquecer uma área que possui forte efeito multiplicador sobre a economia.
O governo também aposta em programas de renegociação de dívidas e liberação de recursos do FGTS para estimular o consumo. O Desenrola 2.0 permitirá o uso de até 20% do saldo do FGTS para quitação de débitos, enquanto o saque complementar do FGTS deve liberar cerca de R$ 8,4 bilhões para trabalhadores demitidos. Essas iniciativas aumentam a liquidez na economia e ampliam o poder de compra das famílias, especialmente em um momento de desaceleração econômica e perda de popularidade do governo.
Além disso, o governo reforçou programas sociais voltados às famílias de baixa renda. O Luz do Povo amplia a tarifa social de energia elétrica, garantindo isenção para parte da população inscrita no CadÚnico. O Gás do Povo promete distribuir botijões gratuitos para milhões de famílias brasileiras. Embora possuam forte apelo social, principalmente em regiões mais pobres do país, onde o peso da conta de luz e do gás de cozinha compromete uma parcela significativa da renda familiar, essas medidas também ampliam as despesas públicas e reforçam o debate sobre sustentabilidade fiscal.
Outro ponto de destaque envolve os combustíveis. Em meio à alta internacional do petróleo e às pressões sobre inflação, o governo anunciou sucessivos pacotes de subsídios bilionários para diesel e gasolina, além da redução de tributos federais. Apenas as medidas voltadas ao diesel ultrapassam R$ 34 bilhões, incluindo redução de tributos federais e estaduais (forçadamente) e subvenções diretas ao combustível. A preocupação do Planalto é evitar que novos aumentos nos combustíveis pressionem ainda mais a inflação e desgastem o governo às vésperas da eleição. Como o transporte rodoviário domina a logística brasileira, qualquer reajuste no diesel acaba afetando preços em praticamente toda a economia.
Apesar do discurso oficial de que parte dessas medidas não compromete as contas públicas, é preciso ter muita cautela. O Brasil já opera com uma dívida elevada e dificuldades para equilibrar receitas e despesas. Atualmente, a Dívida Bruta do Governo já supera 80% do PIB, um patamar considerado alto para países emergentes e com crescimento de mais de 10% desde 2022, quando estava abaixo de 72%. Nesse contexto, o Banco Central pode ser obrigado a manter os juros elevados por mais tempo, dificultando investimentos produtivos e reduzindo o ritmo de crescimento econômico no médio prazo.
Independente de quem ganhar a eleição, o custo desse pacote de bondades virá em 2027 e nos anos seguintes, quando um ajuste forte fica cada vez mais eminente. Caso o ajuste não venha a acontecer, o Brasil corre o risco de perder credibilidade internacional junto a investidores que ainda compram títulos da dívida brasileira, mesmo com juros muito elevados. A experiência passada, tanto no Brasil quanto em países vizinhos, como a Argentina, serve de exemplo.