O Sufoco dos Pequenos Negócios: A Explosão das Recuperações Judiciais e o Custo do Desajuste Fiscal
Author: Ecio Costa
August 4, 2026
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Enquanto a macroeconomia busca se equilibrar, a base do setor produtivo enfrenta uma tempestade devastadora. A mais recente comprovação desse cenário vem do levantamento do Monitor RGF BizDoc, que revelou uma escalada alarmante no número de recuperações judiciais. Mesmo com a provável nova redução de 0,25 ponto percentual da Selic na reunião desta semana do COPOM, o impacto será pequeno e o problema é estrutural.
Os números expõem a gravidade. Entre 2023 e o primeiro semestre de 2026, a proporção de micro e pequenas empresas buscando a proteção da recuperação judicial mais que dobrou. O avanço entre as médias empresas foi de 31%. Em termos absolutos, o Brasil fechou o semestre com o expressivo estoque de 6.341 empresas em processo de reestruturação judicial, uma alta acumulada de 21,2% em 12 meses, segundo dados da Receita Federal apresentados pelo monitor.
Mas o que explica essa explosão de inadimplência? A resposta reside na soma desastrosa de uma política fiscal expansionista com uma política monetária restritiva, usada para combater o efeito da política fiscal, a inflação. Quando o governo aumenta gastos, ele gera um impulso na demanda que se converte em inflação. Para conter os preços, o Banco Central mantém a Selic em patamares elevados.
É neste ponto que o estrangulamento ocorre. Juros altos encarecem drasticamente o crédito. As grandes corporações possuem musculatura para acessar o mercado de capitais e optar por reestruturações extrajudiciais — um caminho mais rápido, mais barato e menos estigmatizado. Já as micro e pequenas empresas dependem quase exclusivamente do crédito bancário, que se tornou proibitivo e caro. Sem acesso a crédito subsidiado e sem fôlego de caixa, elas não conseguem atravessar um longo ciclo de juros nesse patamar.
Esse ambiente corrói a margem de lucro. O consumo pode apresentar solavancos impulsivos, mas é sustentado por crédito caro que asfixia famílias e o varejista. A consequência é a insolvência. O varejo e o agronegócio — que já lidera as estatísticas de recuperação com 1.263 empresas — estão na linha de frente dessa vulnerabilidade. Enquanto o país não alinhar o controle das contas públicas à necessidade de juros civilizados, os pequenos negócios, a espinha dorsal da geração de empregos, continuarão pagando a conta mais alta.