O Varejo na UTI: Juros Altos, Inflação e a Crise do Consumo
Author: Ecio Costa
August 18, 2026
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O varejo brasileiro agoniza em uma espécie de UTI econômica, e o diagnóstico é claro: uma combinação de juros proibitivos, restrição severa de crédito e uma inflação persistente que corrói impiedosamente o poder de compra da população. O setor que, historicamente, pulsa como o coração do consumo nacional, hoje respira por aparelhos, acumulando meses sucessivos de retração e queda livre nas vendas.
O caso emblemático mais recente e mais ruidoso dessa deterioração é o Grupo Casas Bahia. A gigante, que por décadas foi sinônimo de crediário e acesso a bens para a classe média emergente, protocolou um pedido de recuperação judicial nesta semana, sufocada por um passivo que chega a R$ 17,32 bilhões. O movimento ocorreu após o grupo amargar um prejuízo contábil gigantesco de R$ 10,1 bilhões apenas no segundo trimestre deste ano, o que resultou no fechamento de quase 300 lojas e na demissão de cerca de 3.000 funcionários em um único mês.
O que levou um ícone do varejo a essa situação limite? A resposta está no asfixiamento da economia real. Com a taxa Selic estacionada em 14% ao ano, o custo do capital de giro para as empresas tornou-se insustentável. Ao mesmo tempo, o acesso ao crédito para o consumidor final evaporou. Como consequência, segundo o IDV - Instituto para o Desenvolvimento do Varejo, o setor de varejo tem desempenho real médio negativo há 18 meses.
Essa multidão de negativados e asfixiados por juros não tem margem para comprar geladeiras ou televisores. Pior: uma fatia assustadora da renda que deveria oxigenar o comércio está sendo drenada para plataformas de apostas esportivas, as bets, que hoje capturam cerca de R$ 30 bilhões mensais do orçamento dos brasileiros, penalizando frontalmente as classes C e D.
Enquanto a rede de lojas físicas luta para sobreviver ao custo Brasil e ao descalabro fiscal, a concorrência asiática e global de marketplaces (como Mercado Livre, Amazon e Shopee) avança de forma agressiva. Essas plataformas criaram ecossistemas digitais eficientes, serviços financeiros ágeis e preços imbatíveis, tornando o modelo tradicional de grandes lojas, repletas de estoques e funcionários, cada vez mais obsoleto e caro de manter. O fato de a Marabraz também ter pedido recuperação judicial, com dívidas de R$ 140 milhões, logo antes das Casas Bahia, prova que não é um problema isolado.
Os recentes indicadores de retração nas vendas varejistas apontam que o ciclo de crescimento baseado no consumo impulsionado artificialmente se esgotou. A lição que o colapso das Casas Bahia nos deixa é amarga. Enquanto não atacarmos as raízes da ineficiência fiscal que mantém os juros altos, e não devolvermos o poder aquisitivo real para o bolso das famílias, veremos o nosso comércio tradicional definhar, fechando portas e ceifando empregos pelo país afora.