A inadimplência no crédito bancário atingiu 4,2% em janeiro, o maior nível da série histórica do Banco Central iniciada em 2011
Author: Ecio Costa
February 26, 2026
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O indicador considera operações com atraso superior a 90 dias e vem em trajetória de alta desde o ano passado. Nos três últimos meses de 2025, já havia alcançado 4%, superando inclusive o pico observado em maio de 2017, após a última grande recessão econômica. O movimento atual ocorre em um contexto diferente, marcado por juros elevados por um período prolongado, maior endividamento das famílias, aumento da carga tributária e desaceleração forte da economia.
Um dos principais motivos para essa piora é o nível da taxa básica de juros. Desde junho, o BC mantém a Taxa Selic em 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas. Juros nesse nível encarecem o custo do crédito, as parcelas pesam mais no orçamento e sobra menos espaço para organizar as contas. A expectativa do mercado é que o ciclo de cortes tenha início em março.
No crédito com recursos livres, aquele negociado diretamente entre bancos e clientes, a inadimplência subiu para 5,5% em janeiro, acima dos 5,4% registrados em dezembro. Já no crédito direcionado, como financiamentos imobiliários e rurais, o indicador avançou de 2,2% para 2,5%. A diferença revela que o problema está mais concentrado nas linhas sensíveis ao ciclo econômico e, principalmente, nas modalidades emergenciais.
Outro elemento importante é o nível de endividamento das famílias. Em dezembro, o estoque de dívidas correspondia a 49,7% da renda acumulada em 12 meses, o maior percentual desde julho de 2022, quando chegou a 49,9%. Já o comprometimento mensal da renda com o pagamento de dívidas ficou em 29,2%, relativamente estável desde setembro, mas ainda em patamar elevado.
As instituições financeiras, por meio da Febraban, demonstram preocupação com a qualidade da carteira, especialmente no crédito livre às famílias. Em pesquisa recente, 79% dos bancos afirmaram esperar estabilização da inadimplência em breve, enquanto 21% projetam continuidade da alta. A projeção é que a inadimplência da carteira livre encerre 2026 em 5,2%, já incorporando a expectativa de queda da Selic para abaixo de 12,25% ao final do ano.
No fim das contas, o recorde da inadimplência é resultado de uma combinação de fatores: juros altos por tempo prolongado, famílias já bastante endividadas, maior uso de linhas de risco e desaceleração da economia, que dificulta a vida das empresas. O comportamento do indicador nos próximos meses dependerá, sobretudo, da trajetória da política monetária, da evolução do mercado de trabalho e da capacidade de reestruturação das dívidas em um ambiente ainda financeiramente restritivo.