A queda da Selic e o fantasma do preço do petróleo: acerto ou precipitação?
Author: Ecio Costa
March 20, 2026
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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central optou recentemente por dar continuidade ao ciclo de cortes da taxa Selic, uma medida amplamente aguardada pelo setor produtivo e pelo mercado financeiro doméstico. A redução dos juros básicos tem um objetivo claro: aliviar o custo do crédito, destravar investimentos e dar um fôlego à atividade econômica brasileira.
No entanto, enquanto comemoramos o alívio interno, o cenário internacional acende um alerta vermelho que não pode ser ignorado: a preocupante escalada nos preços do barril de petróleo. A pergunta que ecoa é inevitável: teria sido este o momento certo para afrouxar a política monetária? Para responder a essa questão, precisamos analisar as forças antagônicas que operam sobre a nossa economia neste momento.
Do ponto de vista doméstico, o Banco Central tem se apoiado na convergência gradual da inflação (IPCA) para o centro da meta e em um mercado de trabalho que, embora resiliente, ainda precisa de mais dinamismo para sustentar o crescimento de longo prazo. Manter os juros em patamares excessivamente restritivos por muito tempo cobra um preço elevado: encarece o crédito e sufoca pequenas e médias empresas, aumenta o custo da dívida pública e pressiona o já fragilizado arcabouço fiscal, além de desestimular o consumo, retraindo o setor de serviços e o comércio varejista. Nesse sentido, o movimento de queda da Selic se justifica pela necessidade de oxigenar a economia nacional. O problema, contudo, é que não vivemos em uma redoma.
No cenário externo, a cotação do petróleo tipo Brent, referência global, tem apresentado uma escalada consistente. Seja por tensões geopolíticas persistentes ou por restrições de oferta promovidas pela OPEP+, o fato é que o petróleo mais caro funciona como um verdadeiro “imposto global”. Para o Brasil, os impactos são diretos e relevantes: o aumento do petróleo encarece a gasolina e, principalmente, o diesel, e como a matriz logística brasileira é majoritariamente rodoviária, o custo do frete sobe e se espalha por toda a economia, pressionando desde os alimentos até os bens industriais.
Soma-se a isso a incerteza em torno da política de preços da Petrobras, que gera ruídos políticos e imprevisibilidade sobre o repasse das cotações internacionais, além do risco de desancoragem das expectativas de inflação caso o mercado passe a acreditar que esse choque pode contaminar outros preços da economia.
Diante desse contexto, a decisão de reduzir a Selic em meio a um choque de commodities envolve um risco calculado, mas considerável. A política monetária atua com defasagem, de modo que os efeitos dos cortes realizados essa semana tendem a se materializar com mais intensidade apenas entre 12 e 18 meses à frente.
Se a alta do petróleo for temporária, o Banco Central terá acertado ao se antecipar e sustentar o crescimento sem comprometer o controle inflacionário. Por outro lado, caso o barril permaneça em níveis elevados por um período prolongado, a autoridade monetária poderá ser forçada a interromper o ciclo de cortes mais cedo do que o esperado, ou até mesmo retomar a elevação dos juros no futuro para conter uma inflação importada.
Em economia, o timing é determinante. A redução da Selic neste momento reflete uma aposta de que a inflação, especialmente a de serviços, está sob controle e de que o choque do petróleo será absorvido sem gerar efeitos duradouros. Ainda assim, a margem de erro é muito pequena. Para que essa estratégia seja bem-sucedida, não bastará sorte no cenário internacional, será essencial que o governo federal mantenha uma condução fiscal austera e transparente. Sem esse compromisso, choques externos tendem a pressionar o câmbio, desvalorizar o real e amplificar os impactos negativos de um petróleo mais caro. O cenário exige cautela: o mar está agitado, e a vigilância sobre a inflação precisa ser constante.