O recuo na tarifa das "blusinhas": populismo, insegurança nos investimentos e ameaça ao polo têxtil pernambucano
Author: Ecio Costa
May 14, 2026
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A recente decisão do governo federal de voltar atrás e retirar a taxa de importação sobre compras internacionais de até US$ 50 — das famosas "blusinhas" — é um retrato claro de como a política econômica brasileira frequentemente se rende ao calendário eleitoral. Em pleno 2026, ano de eleições presidenciais, a busca por popularidade imediata atropela o planejamento fiscal e a falta de previsibilidade da indústria nacional. Mais do que uma simples facilidade para o consumidor, essa medida escancara a insegurança jurídica e cobra um preço altíssimo do setor produtivo, com impactos relevantes no polo de confecções em Pernambuco.
Primeiramente, é preciso analisar a absoluta falta de coerência nas políticas econômicas do país. Até pouco tempo atrás, o próprio governo capitaneou a volta da tributação sobre essas remessas, com o argumento técnico de que era necessário nivelar o jogo. A isenção, segundo o governo, funcionava como um subsídio oculto às plataformas asiáticas em detrimento do varejo e da indústria nacional, que suportam uma das cargas tributárias mais complexas e elevadas do mundo. Ao desfazer a sua própria regra, o governo emite um sinal alarmante para quem empreende e investe no Brasil: as normas podem mudar a qualquer momento, ao sabor das pesquisas de intenção de voto.
Essa manobra populista colide frontalmente com a dura realidade das nossas contas públicas. O Brasil atravessa um período de forte déficit e endividamento crescente, que já chegou a 80% do PIB. A equipe econômica espreme a sociedade em busca de novas fontes de arrecadação para tentar fechar o orçamento e evitar um colapso na confiança dos mercados. Nesse cenário de asfixia, abrir mão de bilhões de reais em arrecadação nas plataformas internacionais de e-commerce é um contrassenso injustificável ao que o governo se propõe, já que não conduziu até hoje uma reforma administrativa ou outras medidas de redução de gastos. A conta dessa perda de receita não desaparece; ela será transferida para toda a sociedade por meio de inflação ou juros ainda mais altos para financiar o buraco deixado.
No entanto, o impacto mais doloroso dessa canetada será sentido no chão de fábrica e no comércio local. Pernambuco abriga o Polo Têxtil do Agreste, um dos mais importantes celeiros de confecções da América Latina, tendo em cidades como Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru o seu coração pulsante. São dezenas de milhares de pequenos e médios empreendedores, costureiras, cortadores e lojistas que movimentam a economia local, com abrangência nacional. Como exigir que o fabricante de Toritama ou a facção de Santa Cruz do Capibaribe, esmagados por impostos, encargos trabalhistas e custos logísticos, compitam com gigantes estrangeiros que agora voltam a inundar o país livres de tributação?
A Reforma Tributária está em curso e deve alterar parte dos impostos da indústria brasileira, mas somente a partir de 2032. Até lá, a forte concorrência de produtos importados tende a comprometer muitas indústrias brasileiras que não conseguem concorrer com o sistema tributário mais eficiente, com cargas menores, dos produtos fabricados na Ásia, principalmente na China.
O que o governo vende como um alívio ao consumidor traduz-se, na economia real, em concorrência desleal e desindustrialização. A importação subsidiada de vestuário destrói empregos diretos e indiretos no Agreste pernambucano, transferindo a geração de riqueza do interior do nosso estado para a Ásia.
O populismo eleitoreiro das "blusinhas" pode até render alguns aplausos efêmeros de curto prazo, mas o seu custo real será o fechamento de galpões, a precarização do trabalho no nosso Polo Têxtil e o aprofundamento do rombo fiscal. Governar com os olhos exclusivamente nas urnas, sem planejamento econômico e de mercado, sacrificando quem produz e gera emprego no país, é um retrocesso que o Brasil e Pernambuco não podem mais suportar.